Gastronomia por Roberta Sudbrack
16/03/2007 ..
Minha vida sem Toddynho!
Só me faltava essa: recall do Toddynho! Recolheram os Toddynhos das prateleiras! Uma convivência amorosa de anos a fio, interrompida subitamente por causa de uma substância qualquer. Não sei qual foi e nem me interessa saber. A parte que me toca é abrir a geladeira todas as noites e sentir a falta que ele me faz.
Numa das minhas primeiras entrevistas, ainda quando chefiava a cozinha do Palácio da Alvorada, quando perguntada sobre o que comia depois do trabalho, lá ia eu dizendo muito à vontade: misto quen... Quando senti um chute na canela! Não ficava bem dizer que todos os dias da minha vida, depois de cozinhar maravilhas para os mais importantes chefes de estado do planeta, eu comia: misto quente com Toddynho!
Engatei meio sem jeito: “Uma sopa de legumes, um filé grelhado com uma saladinha, um peixinho, coisas leves, sabe como é”. Numa pompa de cair na gargalhada! Anos mais tarde resolvi que já podia dizer a verdade. E como isso me fez bem! O Toddynho também gostou de ver o nosso romance se tornar público e notório. Demos entrevistas juntos, fizemos programas de televisão, até sonhei algum dia ser garota propaganda do Toddynho!
Quando inventaram o Toddynho sabores fiquei furiosa! Sou pelos clássicos! Uma vez depois do meu banho morno, lá pelas três da madrugada, exausta e sonolenta, peguei o Toddynho na geladeira, sacudi, coloquei o canudinho e...Gritei! Pensei o que está acontecendo, não pode ser, mudaram a fórmula do meu Toddynho. O pânico tomou conta de mim e só minutos depois, já desesperada, pensei em ler o rótulo: Toddynho sabores. Foi pior. A ira tomou conta de mim, pensei: mas que história é essa? Toddynho é Toddynho!
Semanas depois refeita do susto e da indignação fui vista várias vezes no supermercado perdendo preciosos minutos em frente à prateleira de Toddynho certificando-me de que estava levando o certo para casa. Afinal sou romântica e para lá de careta. Casamento para mim é coisa séria!
Diante disso, vocês podem imaginar como ando me sentindo sem o Toddynho na minha vida. Estou na fase da readaptação, como quando a gente se separa e tenta levar a vida na ilusão de que vai sobreviver, mas sonhando com a parte em que é possível voltar a fita e continuar de onde paramos.
Até!
15/03/2007 ..
Degustar é viver!
Acabei de chegar do restaurante, foi um daqueles dias milagrosos em que eu me sento e almoço. Hoje foi especial, em vários sentidos. A companhia foi ótima, minha querida amiga Moniquinha, que é uma das pessoas mais interessantes que eu conheço e além de tudo adora comer. Só não gosto quando ela inventa uma onda de fazer regime, não fica interessante, aliás na parte que me toca, fica insuportável conviver com essa situação.
Sentamos na varanda nova da casinha laranja e prometi me comportar, afinal além de estar nessa onda de regime, ela tinha uma misera hora para almoçar. Começamos com uma saladinha de folhas orgânicas, com speck e crocante de parmiggiano, resolvi degustar. Existe uma diferença enorme entre se alimentar e degustar.
Degustar alimenta não só o corpo, ilumina a alma. Degustar é um ato de amor, de respeito, de harmonia entre a comida e o ser humano. São gestos simples que determinam essa harmonia desde que o prato é postado suavemente à sua frente. Está ligado à maneira com que você interage com a comida, à maneira com que você a fita, a suavidade com que pega os talheres e depois inicia o processo de intimidade com o que está dentro do prato.
Preparar a comida é um ato de amor, entrega absoluta, emoção latente. Degustar é a chance de quem está do outro lado da linha de retribuir a esse amor e ao mesmo tempo tirar proveito dele. Proveito esse que nesse caso deve ser tirado sem pudor algum! Faz parte do jogo, dá graça ao jogo!
Degustei a salada como se fosse a primeira vez. Mastiguei suavemente as folhas tenras plantadas e colhidas por mãos tão amorosas quanto as que a prepararam. Observei o tempero, nada em excesso, o que para alguém que está disposto a degustar é a chance de perceber nuances e sabores distantes, para quem está disposto apenas a se alimentar pode parecer falta de tempero. Uma única ciboulette acompanha essa salada, é de propósito. Para os que estão dispostos a degustar significa um encontro grandioso no meio da degustação, um sabor inusitado que se instala, se aloja, se faz presente e importante a uma certa altura. Já para quem está disposto apenas a se alimentar pode parecer frescura!
São maneiras diferentes de olhar uma mesma cena, de interagir, de mergulhar nela. Diferenças que podem determinar de maneira tão simples e singela detalhes tão sutis, capazes de transformar uma simples salada em algo sublime.
O almoço terminou no tempo certo – cerimonial é comigo mesmo! – mas entre uma taça e outra de vinho rosado, um pedacinho de pão fresquíssimo com manteiga e flor de sal e muita conversa jogada fora, acabamos levando três horas a mesa. Resultado, ainda posso sentir nuances da salada na boca, e na alma, a alegria de ter degustado uma tarde prazerosa.
Degustar é viver!
Até!
14/03/2007 ..
Raul na cozinha...
Tem coisas que me emocionam muito, não posso conter! O ato de cozinhar está intrinsecamente ligado à emoção, na minha opinião não há como separar e não se deve tentar, sob pena de se perder o encanto da coisa. Cozinha é técnica e emoção na mesma proporção, esse é o meu lema.
Entrei hoje nos comentários e me deparei com o Raul, como se entrasse na cozinha para pegar um copo d´água depois do almoço, quando ela está serena, tranqüila, à espera da próxima refeição – essa é a melhor hora para se preparar um bolo - e dei de cara com ele! Levei um susto rápido e logo a emoção foi tomando conta de mim. Raul disse poucas palavras e nem precisava dizer mais, a paixão está ali impressa em tinta reluzente. Raul diz só ter 13 anos e eu acredito, esse lugar é para gente verdadeira. Gente que não tem medo de se mostrar, de se entregar, de viver, de cozinhar.
Raul ama a cozinha, como eu amo, como os que freqüentam esse espaço amam. Raul quer viver essa rotina, quer amar mais, quer cozinhar mais, quer viver para cozinhar. Ele não quer cozinhar para viver, ele quer viver para cozinhar.
Como posso não me emocionar com isso se a minha vida está diretamente ligada a essa emoção? Raul me fez pensar, e pensar é imprescindível na gastronomia. Pensar é recriar, pensar é refletir e portanto aprimorar, pensar é mergulhar, é aprofundar, é descobrir. Descobrir maneiras novas de se tratar um ingrediente, de se pensar num ingrediente.
Pense num ingrediente, digamos, a abóbora. Pense nela, reflita sobre a mensagem que o seu cérebro te envia quando você pensa nela: assada, amassada, cozida, purê, papinhas e coisas desse tipo. Pensar na abóbora como algo muito além de tudo isso, pensar na possibilidade de mudar o prisma da mensagem enviada para o celebro, me fez descobrir uma outra dimensão desse ingrediente. Possibilitou de certa maneira dignificar ainda mais esse ingrediente através da reflexão, do pensamento, do mergulho, sem de maneira alguma alterar as suas características, o seu sabor, a sua essência. O tartare de abóbora é na minha visão o exemplo disso, de como é possível valorizar os elementos, através da reflexão. Raul me mostrou numa manhã de quarta-feira que a reflexão é parte integrante dessa fórmula, que no fundo é tão simples:
emoção + técnica + reflexão = verdade!
Raul, Keep Going... Por favor!
Até!
13/03/2007 ..
Coisas para se fazer aos domingos...
A poesia do domingo é diferente. Clarice Lispector disse: “eu detesto domingo por ser oco”. Não deixa de ser, eu concordo, mas cabe a nós tirar o melhor proveito desse vazio, enquanto a luz do dia ainda reina. O cair da tarde aos domingos é mais difícil de digerir do que nos outros dias, mas existem maneiras bem simples e gostosas de se lidar com essa melancolia. E afinal, uma certa melancolia às vezes ajuda no processo criativo!
Coisas boas para se fazer aos domingos:
1 - Acordar cedo – quando possível – afinal quando se trata de domingo é bom aproveitar antes que ele acabe!
2 - Comprar todas as coisas gostosas que encontrar na padaria e preparar um café-da-manhã repleto de excessos! Domingo parece que a gente se sente mais liberado para os excessos, afinal amanhã é segunda-feira e tudo pode se ajeitar!
3 - Não ler o jornal, domingo não tem a menor graça.
4 - Passear no calçadão com o Frederico antes que o sol esteja insuportável de quente, ou depois. Sentar para olhar o mar – ele adora – e comer chicabon – ele adora também!
5 - Ir a uma livraria, qualquer uma, apenas pela graça de estar nesse ambiente no domingo, combina.
6 - Sair para almoçar em algum lugar onde se possa levar o cachorro ou preparar alguma coisa em casa com toda pompa e circunstância!
Nesse domingo como já havia esgotado todas as possibilidades de lugares onde posso ir com o Frederico, só me restou cozinhar! Comprei três tipos de pão no Talho Capixaba: caseiro(o meu preferido), campagne e italiano. Preparei um filé mignon fresquíssimo grelhado com aromático de cogumelos crus, batatinhas douradas e uma simples salada de rúcula com parmiggiano finamente ralado por cima, fruto de um dos melhores presentes que já ganhei na minha vida: um ralador microplane! Abri o queijo da serra da estrela que ganhei da Mari e meia garrafa de vinho tinto, adoro meias garrafas de vinho!
7 - Não dormir depois do almoço, é tempo perdido!
8 - Tomar café no fim da tarde, com alguma guloseima que durante a semana você não comeria, folheando um livro de receitas.
9 - Sair para passear com o Frederico quando a tarde está se despedindo e observar a luz dos abjures acendendo nos apartamentos.
10 - Assistir seriados bobos na tv, domingo é dia de Monk!
11 - Assistir ao Manhatan Conection e vibrar com as críticas ácidas do Diogo Mainard, imperdível.
12 - Fazer um misto quente quase perfeito, procurar um filme bem bobo na tv e assistir ao lado de quem você ama.
Ah! Fala sério, até que o domingo pode ser interessante!
Até!
12/03/2007 ..
Coisas para se fazer aos sábados...
Adoro sábados! Sábados são domingos animados. Têm o frescor dos dias de semana embalados pela preguiça boa do domingo. Os botequins e as padarias – instituições cariocas - ficam lotados de gente interessante desde as primeiras horas. Sábado é o dia oficial da feijoada no Rio, não por acaso não foi o domingo o escolhido. Claro, quando o sábado acaba nem tudo está perdido, ainda se tem o domingo!
Coisas boas para se fazer no sábado:
1- Tomar café preto de máquina antiga, coado em coador de pano na Padaria Rio Lisboa e comer pão na chapa com ovo – minha nova descoberta gastronômica - sem esquecer de pedir com o ovo mole! Um escândalo! Simples, bom e pitoresco!
2- Ler o Caderno Ela, do jornal O Globo, é chiquérrimo e só tem no sábado!
3- Passear com o Frederico, meu adorado golden retriever, pelas ruas do Leblon. Sábado o calçadão não está fechado, o que é uma ótima desculpa para se aventurar pelas entranhas do bairro e descobrir pérolas nas lojinhas de utilidades que vendem de um tudo!
4- Tomar só um Robertinho no Jobi, sem entrar, na calçada mesmo e de uma vez só!
5- Comprar uma Dona Benta, na Kopenhagen, chegar em casa e colocar na geladeira para comer mais tarde!
6- Cruzar com o João Ubaldo Ribeiro pelos becos do Leblon.
7- Almoçar arroz de forno preparado pela minha avó – que na minha “terra” a gente chama de risoto – regado com o azeite Quinta das Marvalhas Reserva de agricultura biológica, safra 2006!
8- Buscar um pão fresquinho no Talho Capixaba, sentar no computador para escrever esse blog e receber de bandeja um cafezinho preparado pela super avó acompanhado de pão fresco com manteiga.
9- Receber um telefonema da casinha laranja dizendo que estamos totalmente lotados sábado à noite, inclusive o balcão, o meu xodó! Tomar banho, vestir o jaleco, montar na scooter e correr para a casinha laranja!
10- Inventar moda, acrescentar pratos que não estavam previstos ao menu – alguns deles absolutamente inéditos – e enlouquecer o meu subchef!
11- Viver a poesia cotidiana da despedida do sábado na cozinha com a minha patota!
12 - Terminar a noite sentada no balcão com a tripulação de bordo, comendo SudDog com cerveja alemã!
13 - Chegar em casa tomar um banho morno e lembrar daquela Dona Benta geladinha que ficou na geladeira!
Até! Terça...
Ops! Mas e o domingo?
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